Episódio Cinco - Envolvido

terça-feira, 29 de setembro de 2009

05.02 - Hora do Almoço

Cena Seis

 

Ítalo olhou o relógio e já estava na hora do almoço. Só lembrou porque seu estômago reclamou por estar a tanto tempo sem que seu dono o alimentasse. Seu trabalho o entorpecia tanto que ele se esquecia da hora. E por pouco não se esqueceu de Leandra. Tinha combinado de almoçar juntos e ele já estava atrasado. Deixou seu computador em estado de espera, conferiu o dinheiro que tinha na carteira e já foi em direção à saída. Os colegas de trabalho também já se organizavam para a hora do almoço. Enquanto saía, Larissa o encontrou.

- Está indo almoçar? - ela perguntou, ajeitando a bolsa no ombro.

- Estou - Ítalo respondeu - Combinei de ir almoçar com Leandra.

- Ah! - Larissa deu um muxoxo. Toda hora que chegava perto de Ítalo, o nome “Leandra” aparecia. - Vocês estão dando certo mesmo, hein?

- Eh! - Ítalo concordou animado - Fazia tempo que não ficava assim com alguém. Às vezes acho que desaprendi a namorar.

- Tenho certeza de que você está se saindo bem.

- Não sei... Ela marcou um jantar com os pais dela hoje. Não tenho certeza se vai sair tudo bem.

- Ah! Ítalo! Pelo amor de Deus! Você é o genro que toda mãe pediu! Você vai se sair bem.

- Estou nervoso com isso.

- Relaxa.

 O elevador chegou ao andar em que Leandra trabalhava.

- Vou ficar por aqui. Vou encontrar com ela.

- Vai lá - Larissa disse, seu desanimo escapando de Ítalo, antes que a porta do elevador se fechasse.

Ítalo realmente estava feliz com Leandra e temia porque ela já havia adiantado que a mãe era uma fera, que quando ela levara outros namorados para conhecer a família, eles foram devorados por uma sucessão de interrogatórios e comentários constrangedores que depois viravam brigas e, eventualmente, rompimentos. Chegou até questionar se esse jantar seria uma boa idéia. Leandra respondeu que podia ser pior se ficassem postergando.

- Acredite - ela completou.

Agora Ítalo se afligia em milhares de perguntas, planejando todas as boas respostas que podia imaginar, antecipando movimentos errados que poderiam ser cometidos à mesa. Será que deveria levar algo para a sogra?

 

Cena Sete

 

Erick e Marcos foram almoçar juntos, relembrar os velhos tempos de faculdade, quando ainda podiam aprontar toda. As festas, as viagens, as correrias pra entregar trabalhos e provas. Erick e Marcos tiveram um começo de carreira parecido. Ambos começaram dando aulas de matemática para o ensino médio. Erick adorava lecionar, ma não era aquilo que queria para seu futuro, mas como ainda estava começando, tinha que partir de algum lugar. Marcos, por outro lado tinha encontrado nas salas de aula a razão da sua vida. Mesmo com metas diferentes, fizeram o mesmo mestrado; onde conheceram William, um recém graduado em administração que já vinha chamando de muita gente. William ainda não era um gênio da administração, apenas um delinqüente super-dotado que irritava a maioria dos professores com insultos e comentários pertinentes. Não foi nem os objetivos diferentes que separaram Marcos e Erick, e, sim, William.

Por algum motivo ainda não explicado pela ciência, William e Erick estabeleceram uma improvável amizade, enquanto Marcos era espezinhado e desprezado por William. Erick fez o que pôde para fazer William aceitar Marcos e, quando não teve mais jeito, tentou manter sua amizade com o colega de faculdade, mas a sociedade que William propôs acabou sendo o golpe de misericórdia.

Poucos se viram desde aqueles tempos, até aquele dia.

- Fiquei muito feliz quando minha secretária me disse que você queria uma reunião comigo.

- Sim, mas você sabe que esta, infelizmente não é uma reunião social.

- Não posso dizer que fique feliz por isso.

- Bem, a um ano e meio me tornei diretor da escola em que eu trabalhava e, cabia a minha e ao dono administrar tudo nela.

- E as coisas não têm ido muito bem... - Erick concluiu.

- Erick, estamos à beira de fechar as portas. Mal poderemos concluir este ano letivo.

Erick suspirou, pesaroso. Desagradava-lhe que um amigo tão estimado estivesse passando por maus bocados.

- Sinto muito ouvir isso. Mas se você está precisando de ajuda, procurou no lugar certo. Tenho certeza que William não ira recusar o projeto.

- Claro que não. Ele não perderia a chance de me humilhar.

Erick não podia discordar.

 

Cena Oito

 

Ítalo não abriu a boca desde que se encontrara com Leandra, no consultório onde ela trabalhava. Chegou ao restaurante calado, serviu seu prato calado e sentou-se a mesa calado. Exceto por alguns olhares, mãos dadas e sorrisos carinhosos, Ítalo estava distante. Leandra ficou um pouco apreensiva porque seu namorado geralmente era muito atencioso.

- O que houve, Ítalo? - ela perguntou, depois de uma garfada.

Ítalo ainda demorou-se um pouco para responder.

- Nada... só estou um pouco ansioso com esse jantar com seus pais.

Ela sorriu:

- Isso?! Eu devia estar mais preocupada do que você?

- E se seus pais não gostarem de mim?

- Não gostarem de você? Ítalo, deixe de dizer besteiras! Você é o genro que toda mãe sonhou! Conhecendo meus pais como os conheço, é provável que gostem mais de você do que de mim.

- Por que você diz isso?! - Ítalo perguntou, levemente horrorizado.

- Eu sou a secretária caçula de um doutorando em engenhara civil e uma endocrinologista, que, do ponto de vista dos meus pais, só namorou perdedores e desperdiçou a vida em baladas. Na concepção deles, você é um raio de sol que vai me colocar de volta no caminho.

Ítalo ficou surpreso com o que a namorada havia dito. A verdade era que Leandra nunca tinha falado muito da família, até ter surgido com aquele assunto de jantar.

- Você é uma pessoa adorável, excepcional! Como seus pais pensariam isso de você?! – ele exclamou, tentando conceber a descrição, certamente, exagerada que Leandra fizera.

- Um par de irmãos mais velhos falam por si só. - Leandra respondeu. - Eu já estou acostumada. Sempre foi assim: meus irmãos se sobressaíam e na cabeça dos meus pais eu tinha que seguir o exemplo, mas eu não seguia...

Uma similaridade que Ítalo notara compartilhar com William era a capacidade de avaliar as minúcias das expressão nas outras pessoas, enxergando seus verdadeiros pensamentos e sentimentos. A diferença era que William não se importava com isso, a não ser para manipular ou se divertir às custas dos embaraços alheios. Ítalo era mais sensível. Não foi difícil perceber que, apesar de se declarar acostumada com a pressão do sucesso dos irmãos mais velhos, ela guardava um certo ressentimento; ele só não tinha certeza do que exatamente. Dos pais? Dos irmãos? De todo muno?

Ítalo nunca teve que lidar com esse tipo de experiência. De fato, até conseguir o emprego que o satisfazia quase plenamente, ele impusera pressão mais do que suficiente para ser bem sucedido. Seus pais até diziam que ele não precisava ser tão duro consigo mesmo.

E era essa falta de habilidade com a pressão exterior que o estava matando. E agora tinha adicionado ainda mais problemas com a relação Leandra/família, como se a relação Ítalo/família da namorada já não fosse suficiente.

 

Cena Nove

 

Os analgésicos não estavam fazendo efeito. A dor aparentemente piorara, a despeito dos três comprimidos que tomara de uma única vez, junto com um gole apressado e desagradavelmente quente de capuccino. Não fosse pelos inúmeros projetos que tinha que dar cabo, ele não sabia como agüentaria tanta dor. Até começava a sentir uma leve pontada no estômago.

Lá pelas tantas, depois te terminar o costumeiros x-bacon de almoço, William recebeu a visita de Elisa em seu escritório.

- Vá embora! - ele disse, sem tirar os olhos do papel.

- A dor ainda não melhorou?

- Não. - respondeu, indiferente. - Tomei três analgésicos e nada até agora!

- Tem certeza que a dor é física? Pode ser emocional, estresse...

- Eu não estou deprimido. Se não fosse por esse estúpido torcicolo, eu estaria maravilhoso!

- Você quer me dizer que essa sua dor não tem nada a ver com o câncer da sua mãe e sua tentativa de ignorar isso?...

William nem respondeu. Apenas levantou um olhar ferino, quase maligno para a amiga, sinalizando claramente: “cale a boca”.

- Ok! Não está mais aqui quem falou...

- Queria que fosse verdade...

Depois de tantos anos de convivência, Elisa aprendeu a driblar a hostilidade de William, que, pelo menos em relação a ela, nunca era sincera.

- O que você veio fazer aqui?

- Vim ver como você estava. Ainda estou no meu horário de almoço.

- Nós somos empresários, dono do nosso próprio negócio. Não temos horário de almoço, folgas ou férias... - William respondeu mal-humorado.

- Já deixamos essa fase faz anos, William. Acho que nosso filho já está bem crescidinho pra precisar de cuidados permanentes.

William ficou impressionado:

- Uau! Desde quando minha sócia, convicta de seus deveres enquanto empresária e quase paranóica obsessiva por trabalho adquiriu essa postura tão relaxada, quase rebelde? - disse ironicamente.

Elisa tentou contar o sorriso de satisfação.

- Eu que me espanto com você, enfiado até o pescoço em projetos, implorando para não ser perturbado.

- Trabalho distrai minha dor.

- Vamos falar sério, agora. Você não acha que devia ir ao médico examinar esse torcicolo? Ou a um fisioterapeuta? Ou a um psiquiatra?...

- Eu não estou deprimido, estressado ou ansioso! Eu apenas dormi de mal jeito no sofá. Depois de mais uma mão de analgésicos ela deve passar...

- Você já tomou três e nada! - a amiga contra-pôs.

- Eu já sei cuidar de mim mesmo, mamãe!

- Sei... Tomando quantidades absurdas de analgésicos para algo ridiculamente inofensivo...

- Você me conhece: “pra que matar uma mosca com um inseticida se posso usar uma bazuca?!”

Elisa apenas concordou com a cabeça, ignorando o exagero do amigo.

- Seu affair veio falar comigo hoje?

- Thiago?! - ela espantou-se.

- Tem mais algum que eu não saiba? - William perguntou, sarcasticamente.

Elisa revirou os olhos, julgando-se estúpida por cair nas armadilhas verbais de William.

- Claro que não! O que ele disse?

- Que você é a luz do dia dele... o sol e as estrelas... um diamante lindamente lapidado que ele almeja ter e amar pelo resto da vida... – William disse, como se recitasse um poema falsamente romântico.

- Sério, William...

- Ele quis que eu desse umas idéias num projeto que ele assumiu... - ele disse distraído. Ele adorava irritar os outros dando rodeios infinitos.

- William! – ela gritou, irritada.

- Calma... calma... ele só veio pedir conselhos sobre seu medo de expor seu relacionamento com ele.

- E o que você disse?

- A verdade. - ele responde, simplesmente.

- Que verdade?

- Que você dá mais valor a sua vida profissional do que afetiva e que se ele te pressionasse a escolher entre uma coisa ou outra, você acabaria escolhendo sua carreira profissional.

- Por que você disse isso?! – Elisa disse, surpresa e ofendida.

- É a verdade, Elisa! Você sabe muito bem disso!

- Você não sabe bem disso!

William largou a caneta e os papeis e se debruçou sobre a mesa, olhando intensamente para Elisa.

- Eu sei sim! Te conheço há muito mais de vinte anos! Conheço cada um dos seus passos!

Foi como se um balde d’água tivesse caído sobre Elisa, esfriando sua raiva. Afinal de contas, se alguém a conhecia bem o suficiente para prever suas reações, era William.

- Sem contar que você já disse, em claro e bom tom que não quer dizer a ninguém que vocês estão juntos. Eu apenas expliquei em miúdos o que você queria dizer...

Elisa relaxou na cadeira, pasma, confusa.

- Você acha que eu fiz bem?

- Eu já disse o que eu acho...

- “Ninguém tem nada a ver com a minha vida”, “eu deveria ser menos medrosa”, “parar de achar motivos pra acabar com um relacionamento”... blá blá blá...

- Por que você me incomoda com assuntos irrelevantes quando já sabe tudo o que eu vou dizer?...

- Então, você acha que eu deveria esquecer a Lazarus e pular de cabeça?

- Sim, só cuidado pra não quebrar o pescoço...

- Muito animador... - Elisa desdenhou, imaginando todos os cenários que “quebrar o pescoço” podia representar. - Sabe... é estranho você me aconselhar a pular de cabeça num relacionamento, já que você não tem um há, quanto tempo mesmo?... Uns dez anos?

- Treze! - William corrigiu. - Eu e você somos pessoas diferentes, portanto, não seria hipocrisia eu te dizer o que fazer, mesmo eu não fazendo.

 

Cena Dez

 

Erick e Marcos estavam na fila do caixa, prontos para pagar a conta. Erick ainda pensou em se oferecer para pagar a conta do amigo, mas receou que ele fosse entender como caridade. Era difícil ajudar alguém em processo de falência parecer condescendente, mesmo que fosse apenas uma gentileza. Preferiu ficar na sua.

Entregou a comanda e seu cartão de crédito para a atendente que parecia enlouquecida pelo horário de pico. Erick ainda falou algumas amenidades com Marcos enquanto esperava que a atendente efetuasse o pagamento, quando viu passar pela porta do restaurante, Michele.

Seu coração disparou, ao lembrar da última vez que falara com a garota. Na ocasião, ele estava tão perturbado com as idiotices de William, que acabou sendo desnecessariamente grosso com ela, mesmo que ela tivesse passado dos limites e ido procurá-lo na porta do trabalho, logo depois de Cristina sair. Aquilo não justificava sua atitude e desde então tinha sido atormentado pela sensação de que devia a Michele, elo menos, um pedido de desculpas. No entanto, não tinha tido a chance nem a coragem. Até aquele momento.

- Marcos, eu preciso me apressar agora, mas eu vou levar isso a Elisa e vamos achar uma solução para o seu problema com a escola – disse, afobado.

Marcos estranhou a mudança repentina no humor do amigo, mas não pode responder nada além de:

- Sim, claro. Obrigado pelo seu tempo.

Com um rápido aperto de mão, Erick se despediu:

- Disponha. Logo mais eu te ligo, para acertamos os últimos detalhes e ... – disse, já se afastando – desculpe sair correndo assim.

- Sem problemas. – Marcos respondeu confuso.

Erick saiu em disparada pela calçada, fixando a moça loira lá na frente, na multidão que se amontoava no fim do horário do almoço. Enquanto corria, seus pensamentos rodopiavam: afinal de contas, o que diria? Se conseguisse pensar em alguma coisa, será que se faria entender, será que Michele o perdoaria pela estupidez?

Faltava pouco para alcançá-la e ainda não tinha se decidido. Mas já tinha ficado sem tempo. Instintivamente, a puxou pelo ombro.

- Michele!

A garota se virou assustada pela abordagem repentina no meio da rua e se preparou para gritar, enquanto espremia a bolsa de ombro junto ao corpo, quando, então, o reconheceu.

- Erick - ela disse, aliviada.

- Desculpe, eu não pretendia assustá-la. - Erick disse, arrependido por ter sido tão afobado.

Michele pensou em dizer alguma coisa, mas não conseguiu elaborar nada em resposta que fosse ideal. Nem Erick. Um silêncio constrangedor se instaurou entre os dois, enquanto se encaravam.

- Olha, eu preciso voltar ao trabalho... – Michele disse, tentando desviar o assunto.

- É, eu sei. Eu também tenho que voltar para a Lazarus.

- Ok - ela forçou um sorriso, que não se saiu muito bem. - Até mais.

- Espera! Eu não te parei no meio da rua para te dar um susto. Eu queria te pedir desculpas pela última vez que nos encontramos.

Rapidamente, semblante de Michele mudou. De assustada e constrangida, ela passou para triste, no mesmo segundo.

- Olha Erick, eu realmente não quero falar nisso.

Erick engoliu em seco.

- Eu sei que fui estúpido e grosso com você, Michele. Eu não tinha a intenção de magoá-la.

- Eu sei que não, Erick...

- Deixa eu te pagar uma xícara de café, ou um suco... sei lá... tentar te compensar pelo que eu disse – então, ele parou para analisar o que havia proposto e se julgou ainda mais idiota or achar que um suco ou um café poderia realmente compensar as palavras que tinha dito.

- Eu não sei se essa é uma boa idéia - Michele respondeu, ajeitando a bolsa no ombro, hesitante.

Erick teve que reconhecer:

- Eu também acho que não. Mas pelo menos me dá tempo para achar uma boa idéia.

Michele não pode conter um ingênuo sorriso.

- Eu tenho mesmo que voltar ao trabalho Erick.

- Depois? - sugeriu rapidamente.

Michele hesitou mais uma vez.

- Não sei, Erick... Você já deixou bem claro que não quer nada comigo e me chamar pra sair  não é um bom jeito de afirmar isso.

Outra vez, Erick tinha que concordar.

- Eu só quero a chance de me desculpar com você, só isso.

Ela suspirou.

- Ok. - disse enfim. - Depois do trabalho.